um bestiário do sertão brasileiro
SERTÃO
Negro
O que o sertão enterrou não morreu.
Um encantado novo por noite — em vídeo, todo dia às 22h
O Códice
Um livro que ainda está sendo escrito
Há um homem que anda descalço pelas estradas de terra do sertão, vendado por escolha própria — arrancou a própria visão do mundo dos vivos pra parar de ver o que sempre esteve ali, esperando na beira da mata, no fundo do poço, na curva depois da encruzilhada.
Chamam ele de Rezador. Ele não tem outro nome, ou teve um e esqueceu de propósito. Toda noite ele encontra um encantado diferente — um horror antigo do folclore brasileiro, reimaginado como nunca foi contado — e escreve o nome dele na terra, pra lembrar que passou por ali, e pra avisar quem vier depois.
Cada vídeo é uma página desse Códice. Uma criatura. Uma regra de sobrevivência. Um preço pra quem não escuta.
O sertão não esqueceu o que enterrou. Ele só esperou a hora certa de contar.
O Bestiário
Quem já foi encontrado
Cada encantado tem uma cor própria, um som próprio e uma regra que — se seguida — talvez baste. O Códice segue crescendo; o que ainda não tem página está marcado abaixo.
O Rezador
narrador — não é encantado, mas também não é mais só gente
Vendado por escolha própria. Terço de contas pálidas, casaca preta puída, sempre descalço. Amarra encantados escrevendo o nome deles na terra — e carrega mais história pessoal com alguns deles do que conta.
A Noiva de Ferro
nome popular: Mula-sem-cabeça
Égua colossal. Onde devia estar a cabeça, só um véu de noiva em chamas e uma coluna de fogo dourado subindo pro céu. Corre a estrada de terra toda quinta, à meia-noite.
Pé-Torto
morador da mata fechada
Um menino de nove anos que não é menino. Pele rachada como casca de árvore, cabelo de brasa viva pingando faísca, pés virados pro lado errado. Assobia três notas e conta as respostas.
O Contador
guardião da estrada dos doze postes
Um poste de madeira que virou corpo. Coberto de marcas de contagem entalhadas, olhos ocos de brilho fraco, dedos compridos que batem um ritmo silencioso contra o próprio peito.
Corpo-seco
o homem que a terra recusou
Pele seca colada direto no osso, roupa puída de trabalhador rural — mas os olhos ainda vivos, úmidos, desesperados. Não persegue. Só circula, sempre voltando pro mesmo ponto.
O Que Bate
nunca totalmente na luz
Um vulto alto demais, envolto em pano escuro que parece sombra líquida. Dedos compridos demais pra serem mão de gente. Rosto liso, sem feição nenhuma. E ele sabe imitar a voz de quem você ama.
A Voz Submersa
nunca sai inteira da água
Pele escamada, marcas de rede antiga na pele. Por fora, a boca é perfeitamente humana. Por dentro, um segundo anel de dentes. Canta sem palavras — mas com a voz exata de quem você mais confia.
A Que Vira Bicho
anda sozinha nas noites de lua cheia
Uma onça de pelo preto absoluto, calma demais pra ser bicho selvagem. Os olhos não são de onça — são humanos, castanhos, impossivelmente familiares. Alguém que você conhece pode estar voltando pra casa.
O Diário
Episódios
Sete páginas do Códice, na ordem em que foram escritas. Cada uma é uma entidade, uma regra, e um preço pra quem não escutou.
Ele riu da lenda na quinta-feira. Na sexta acharam só o chapéu e a sela.
Ele respondeu ao assobio três vezes achando que era passarinho. Faltavam só quatro.
Ele contou os doze postes em voz alta pra provar que não tinha medo. Deu treze.
O pai não achou o filho na estrada. Achou a moto ligada e ninguém em cima.
Ela contou as batidas. Na terceira, a voz da própria mãe chamou seu nome do lado de fora.
Ele viu a mãe de costas no rio, de madrugada. Ela nunca tinha saído de casa.
Ele atirou na onça que rondava a casa. Achou a aliança dele presa na pata dela.
Regras de Sobrevivência
Se for andar sozinho essa noite
Sete regras. Sete jeitos diferentes de não virar página do Códice.
Se ouvir corrente na estrada, desce e ajoelha. Não olha pro fogo.
Noiva de FerroNunca responda um assobio na mata.
Pé-TortoSe contar e der treze, o décimo terceiro vai com você.
O ContadorNão pare o motor na encruzilhada.
Corpo-secoTrês batidas sem voz não é gente.
O Que BateNão responda quem te chama da água, nem se for a voz de quem você ama.
A Voz SubmersaNão atire em bicho que anda sozinho perto de casa.
A Que Vira Bicho